Você precisa crescer

No decorrer da vida passamos por muitas fases e acredito que a adolescência é a melhor delas, pois é nela que mais aprendemos e terminamos de formar nosso caráter. É nesse período que todas as surpresas acontecem e temos que aprender a lidar com todas elas e como a vida não vem com manual de instruções, a única forma de entender e aprender é vivendo.

No último final de semana presenciei um cena que me fez voltar no meu passado e lembrar do quanto a insegurança e instabilidade me faziam ver as coisas de outra forma. Uma adolescente teve uma briga com os pais e tarde da noite decidiu sair andando pelas ruas sem destino, sem pensar no perigo e com o sangue quente, a garota andou por vários quilômetros até encontrar a policia, que sua mãe já havia acionado depois de aguardar por um tempo e a filha não retornar, onde a levaram para delegacia. No meio da discussão da menina com os pais, ouvi quando a mãe disse: "Você precisa crescer minha filha". E de repente eu não estava mais ali, por alguns minutos eu puder fazer uma viagem e entender algumas coisas que hoje são apenas cicatrizes.

Eu devia ter meus dezesseis anos e como qualquer outro adolescente estava descobrindo como viver e lidar com as situações difíceis. Cada um reage de uma forma nesses momentos e eu escolhi a automutilação. Assim como na época, muitos podem ler isso e pensar que seja frescura mas terá quem entenda o peso que isso tem, e foi isso o que mais ouvi de quem estava próximo a mim. Hoje eu consigo ver que na verdade muitas delas estavam preocupadas comigo e até onde isso me levaria mas como disse anteriormente, a vida não tem manual e eu precisava aprender.

A cada situação que exigia de mim o entendimento contrário ao meu era um corte que marcava o meu braço, a sensação era aliviadora. Nada supria melhor a dor que carregava no coração como a dor física que eu mesmo provocava em mim. E assim eu vivi um grande período da minha vida, tentando escapar das cobranças que ela mandava pelo peso de ser e ver a minha maneira.

Tá, mas o que isso tem a ver com a história que contei no início? Além de ver a insegurança e instabilidade presente nela da mesma forma que via em mim, quando eu cortava o braço na esperança de fugir por alguns minutos era a única solução que via por acreditar que ninguém além de mim tem a ver com os problemas que eu criava. Até que um dia em uma discussão com meu pai, decidi que cortaria novamente meu braço só que dessa vez os cortes foram mais profundos e não pude esconder o sangue no chão, quando ele adentrou o quarto para terminar a discussão que eu havia começado a pior das hipóteses aconteceu, a descoberta de ver que eu fazia comigo mesmo chocava as pessoas e com ele não foi diferente mas no calor do momento a reação dele foi limpar os cortes do meu braço com álcool, me chacoalhar e dizer: "Você precisa crescer Halisson". Naquele momento não ouve dor maior do que a do peso da responsabilidade de tudo que provoquei a mim por não saber entender as coisas como elas são.

Eu já tentei imaginar como deve ser para os pais lidar com essas situações mas com certeza deve ser bem mais do que minhas suposições, e também não também não cabe a mim julgar a forma correta de se tratar problemas como o meu ou o da garota da história que contei, mas naquele momento eu pude entender os problemas estariam presentes pela minha vida toda e que só cabe a mim fazer a escolha da melhor forma de resolvê-los. Por mais que pareça impossível, nós sempre vamos conseguir uma solução para todos eles.

E hoje o que me restou foram as cicatrizes que me encorajam a ser diferente do que já fui, acreditar nas minhas escolhas e principalmente em mim e quando olho para elas, tenho ainda mais certeza de que posso ser bem mais que sou hoje.


Comentários via Facebook

0 comentários:

Postar um comentário